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 CÂMARA BRASILEIRA DO JOVEM ESCRITOR




 

 
 

SENTIMENTO MAIOR

 

Não penso em Deus como Poder, Senhor, Criador, Rei,

Como o que transforma água em vinho;

Não penso em Deus como o que ressuscita dos mortos,

Ou como o que ressuscita os mortos de carne pútrida;

Não penso em Deus como um Pai cruel

Que castiga o filho com chicote ou vara de bambu;

Não penso em Deus como Aquele que exige o sacrifício do próprio filho

Para salvar-se e salvar a humanidade;

Não penso em Deus como Aquele que elege uns

Em detrimento de outros,

Que para uns dá felicidade e para outros, infortúnio;

Não penso em Deus como um ser ao qual se deva obediência,

Ao qual se deva curvar-se,

Ao qual se deva temer,

Ao qual se deva baixar a cabeça;

Não penso em Deus a quem se deva entregar,

A quem se deva converter:

A conversão é o reconhecimento do erro.

Eu penso em Deus, sim.

Mas não o Deus da tradição religiosa.

Eu penso em Deus como um sentimento

Que se entranha dentro de mim

Para me transformar no que é bom.



Escrito por Lourival Lopes às 09h44
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A FÚRIA DE EMÍDIO

O dia amanheceu nublado, como se fosse chover. Eram nuvens carregadas, escuras. Mas não demorou muito. Começaram a se dissipar, voltando à claridade. Os raios do sol começavam a surgir, iluminando aquela manhã fria. Com o sol se abrindo, era possível perceber aquela figura desengonçada, matulão nas costas (um saco de estopa com umas tralhas velhas dentro), corpo curvado para frente, caminhando na direção do rio. Muitos alunos, vindos do lado do Maranhão, se juntavam aos alunos do bairro Beira Rio e do São João, formando um grupo grande de adolescentes, vestindo todos bermuda azul e camisa de tergal branca, onde se percebia as iniciais FCB (Fenelon Castelo Branco) que era o nome do grupo escolar onde estudavam. Meninos afoitos, cheios de energia, formavam grupos afins, às vezes, de bairros diferentes. Era no mês de março de 1967. No início do ano letivo. Ao perceberem a figura que se aproximava, cada grupo saiu para um lado da rua, abrindo uma passagem no meio. Todos o conheciam e sabiam do perigo que estavam correndo.

- É o Emídio.

- É o Emídio.

- É o Emídio.

- Temos que ter cuidado.

Assim conversavam entre si, quando reconheceram Emídio.

Emídio era um mendigo que perambulava pelas ruas de União nas décadas de 1960 e 1970. Nunca se soube qual era seu verdadeiro nome, sua família, sua cidade. A única coisa certa era que aparecera na cidade, carregando sempre aquele matulão sujo às costas. Dormia nas calçadas, nos bancos da praça e comia porque as pessoas generosas davam. Usava uma lata de doce como prato para receber a comida. Não mexia com ninguém. Mas percebiam-se nele traços de loucura. E quando se zangava, jogava pedras nas pessoas indistintamente. Era um perigo, pois tinha a mão certeira. Vez por outra, aparecia alguém com a cabeça furada pela força da pedrada de Emídio.

O encontro com os adolescentes da escola não era nada agradável. Vivia a resmungar:

- Bando de fiduãégua – falava baixinho. Mas o suficiente para todos ouvirem.

Como já sabiam que Emídio era violento, cuidavam em se esconder por detrás de alguma coisa: um poste, um pé de manga, um carro, uma carroça, um animal...

Enquanto não apanhava uma pedra, estava tudo normal. Mas, quando se abaixava, todo mundo já sabia:

- O homem se armou.

Meninos gostam de perigo, aventura. E era exatamente nesse momento que tudo começava para Emídio. Enlouquecia, perdia o rumo, atirava pedra para todos os lados, quando ouvia:

- Emíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidio.

- Emíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidio.

-Emíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidio.

Enfurecido, virava-se para um lado, para o outro atirando pedras violentamente. Ninguém entendia o porquê de tanta violência e de tanta fúria. O certo é que aquela cena de violência e fúria de Emídio deixava os alunos extasiados. Quando não encontravam Emídio no caminho, eles iam procurá-lo, só para provocar a fúria dele.

As pedras atiradas sem destino certo quebravam as vidraças das janelas, vidros de carro, entortavam raios de bicicleta. Era um estrago muito grande.

Em dia calmo, sem aluno por perto, perguntado sobre o motivo de tanta raiva, respondia.

- É que esses fiduãégua esticam demais o meu nome. É o puxado no Emíiiiiiiiiiiiiiiiiidio que eu tenho raiva.

Nisso um menino, à paisana, que passava por ali, gritou correndo:

- Emíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidio.

- Fiduãégua. Tá vendo só o tamanho do puxado. É o rabo da tua mãe.

Muito tempo depois, soube-se que amanhecera morto, numa calçada, com as mãos ainda cheias de pedra.



Escrito por Lourival Lopes às 10h43
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NÓS E O TEMPO

 

O tempo está ali, quietinho, na dele, sossegado,

não olha para ninguém. E nós, apressados,

passando, parece que queremos

correr contra o tempo. E

ele, ali, quietinho.

Dá a impressão

que o tempo

não anda.

É como

olhar

a lua

cheia,

com

aquela

nuvem

plúmbea se

aproximando.

E, nós, parados,

olhando para cima

e vendo a lua andar.

Apressada. E a nuvem parada

é só impressão. A lua está parada.

Nós é que corremos, apressados. Mas

o pior é que é uma correria que vai dar num

abismo sem fim. E o tempo, ali, quietinho, quietinho.

 

 



Escrito por Lourival Lopes às 09h15
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A VOZ QUE CANTA

 

A vida do povo sofrido,

A sua labuta diária

No roçado e no campo,

A sua sina de gente

Forte, resistente,

Valente, reta e honesta

Nos cerrados e nas caatingas,

Nos sertões e nas vertentes

Dos rios e dos riachos,

Das cacimbas e dos currais

É canto que eu canto aqui

Nas modas de viola

De um caboclo da roça

Que viveu no Assaré,

Nas covas que dão a semente

Da fala fácil, da rima aprumada,

Do gesto humilde

E do saber inato.

És Patativa no canto

E na voz que canta

As lamentações do povo

Que sofre com as injustiças

E com as intempéries da vida.

És Patativa que canta

O canto que encanta

A alma do sertão nordestino.



Escrito por Lourival Lopes às 21h09
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ILUSÃO DE AMAR

 

A ilusão de amar

nos leva à ilusão de que somos amados.

Não basta apenas que amemos

 Para sermos amados.

Será preciso que o outro nos ame também.

O amor não existe na unilateralidade.

 O campo, onde prolifera o amor,

é terra fértil.

 Do contrário,

o amor será apenas uma semente

em solo infértil.

Às vezes até germina,

mas, devido à infertilidade do solo,

a plantinha nasce

e depois seca,

resseca e vira pó

e se transforma em nada.



Escrito por Lourival Lopes às 21h06
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O MONSTRO DO RIO OU ESTÓRIA DE PESCADOR

Ouvira, durante muito tempo, de meu pai, a história do peixe gigante que aparecia lá no porto das pedras, onde se formara o canal do rio Parnaíba, próximo à barra do Rafael. Segundo ele, tratava-se de um surubim enorme que afundava as canoas dos pescadores, à noite, geralmente na lua nova, de escuridão intensa. Passar de canoa por ali era uma temeridade, principalmente depois que a estória se espalhara. Homens, mulheres, crianças, todos evitavam passar por ali, e quando passavam, durante o dia, mesmo sabendo que ele não atacava, rezavam pai-nosso e ave-maria, pedindo proteção.

Eu, menino ainda, achava aquela estória estranha. Mas, sempre que via a poroca, o redemoinho nas águas, quando passava de canoa com meu pai por aquele lugar, me dava um frio na espinha. Sempre dizia:

- É aqui, pai, o lugar que aparece o monstro?

- Não é monstro, rapaz, é um peixe grande que se esconde nas pedras, durante o dia. À noite, quando aparece, ninguém se atreve fisgar ele. O bicho é tinhoso e, devido à estória, pegou fama. Todo mundo tem medo.

- Pois, quando eu crescer, vou pegar ele vivo.

- Quando isso acontecer, quem vai saber se ele ainda existe?

- Mas se existir, eu vou pegar.

Eu tinha uns dez anos. Quando completasse dezoito, tentaria pegar o bicho. Minha mãe, quando soube da minha intenção, me pediu que deixasse essa ideia maluca pra lá. Me dizia que não existia peixe gigante nenhum, que isso era invencionice de pescador que não quer que outros pescadores pesquem naquele lugar. Acontece que eu acreditava naquelas estórias. O rio era muito profundo e caudaloso. Com certeza, nas profundezas do rio haveria muitos peixes gigantes. E ali, nas pedras, era o lugar apropriado para esconder esses monstros da água doce. Ninguém tirava essa ideia da minha cabeça de criança.

Completei dezoito anos e a ideia de pegar o bicho continuava mais firme do que nunca. Outras estórias surgiram. Uma delas aconteceu com o Zé Pescador, que fora engolido pelo bicho. Só acharam a canoa a uns dez quilômetros do local. O corpo nunca encontraram. As estórias em vez de me esmorecerem, me davam forças para por um fim no medo das pessoas que crescia assustadoramente.

Um dia, de lua nova, me preparei escondido, porque até meu pai, pescador veterano, não gostava daquela ideia. Minha mãe nem se fala, morria de medo.

Mandei fazer, pelo ferreiro, um anzol bem grande, com uma espécie de arpão na ponta. Se as estórias fossem verdadeiras, e o bicho pegasse a isca, não dava outra: a cidade inteira ia falar da minha coragem e intrepidez. Cortei umas iscas de carne bem grandes. Bicho que engole gente gosta de iscas grandes. Amarrei, bem amarrado, o anzol numa corda de nylon bem fornida, capaz de segurar um boi. Deu meia-noite, saí às escondidas, p’ra ninguém me vê. Levei uma lanterna para iluminar o caminho. Precavido, não fui de canoa. Fui abeirando o rio. Cheguei ao porto das pedras, procurei um lugar seguro para ficar. Estava um pouco ansioso, e com um pouco de medo. Mas não ao ponto de desistir. Acendi a lanterna para cima da ribanceira e dei fé de um pau-d’água grosso cujos galhos desciam sobre o rio.  Subi um pouco a ribanceira e abracei com o nylon o tronco do pau-d’água. Dei várias voltas com o nylon para ficar bem seguro. Eram cem metros de nylon, suficientes para pegar o bicho, fosse peixe ou não. Desci a ribanceira. Fiquei em cima de uma pedra enorme, onde, durante o dia, as mulheres lavavam roupas, seguras de que o bicho não apareceria de dia. Botei a isca de carne no anzol e tibungo dentro da água. Não demorou muito. Senti um puxão na corda, quase me leva de cima da pedra. Dei uma puxada, mas a força do bicho era tão grande que cortou a minha mão. Foi o jeito soltar a corda, seguro de que os cem metros seriam suficientes para acalmar o bicho. E foram. Com a mão ensanguentada, fui puxando a linha vagarosamente. De repente, um novo puxão, mas, agora, precavido, soltei a corda no primeiro impulso. O bicho puxou, puxou, puxou. E tome corda. Até que chegou ao final, cem metros. A corda de nylon esticou toda, mas firme por estar amarrada ao pau-d’água. Só se ouvia o barulho na água, parecia baleia em alto mar batendo suas abas contra as águas. Era um barulho enorme. Mas estava seguro, mesmo sentindo que os galhos do pau-d’água balançavam sobre as águas.

- Peguei o bicho. Obrigado, meu Deus. Acabou.

Subi rapidamente a ribanceira e saí em disparada. Corri até minha casa. Chamei meu pai e lhe contei a história. Meu pai ficou preocupado e atônito:

- Você ficou maluco. Podia ter morrido.

- Sou um homem, tenho inteligência. Não tenho nada a temer.

- Vamos lá.

- Não adianta. Só nós dois não daremos conta. Olhe minhas mãos. Não suportei segurar sozinho. O bicho é muito grande.

- Você é maluco, meu filho. Precisamos de mais pessoas.

- Umas dez, pelo menos.

A vizinhança toda acordou, porque eu gritava: “peguei o monstro, peguei o monstro do rio”.

Juntou muita gente. Era mais ou menos duas horas da madrugada. Chegamos ao local. O converseiro era grande. Todos se assustaram quando ouviram o barulho nas águas. Era um espetáculo grandioso, estupendo, descomunal. Nunca ninguém vira nada igual no rio.

Começamos a puxar a corda. Eram umas dez pessoas, mas a força do bicho era tão grande que a gente precisava encorajar os outros para ninguém soltar a corda de nylon. Botamos muita força, deu muito trabalho, mas, finalmente, o bicho estava seguro. Puxamos o bicho, o monstro ou sei-lá-o-quê para cima da pedra, quando colocamos a lanterna para ver o que era de fato, o espanto.

- Valha-me, Deus!

- Minha Nossa Senhora dos Milagres!

- Não é possível.

Para surpresa de todos não era um bicho, muito menos um peixe. Era uma Mãe-d’água de mais ou menos um metro e setenta centímetros. Metade mulher e metade peixe. Infelizmente estava morta, sagrando a cabeça, provavelmente bateu a cabeça em alguma pedra, quando a puxávamos pela corda de nylon.

Senti um remorso muito grande depois que o mistério acabou. Nunca imaginei que Mãe-d’água existisse. Pensei que fosse estória de pescador.



Escrito por Lourival Lopes às 23h15
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O DIA EM QUE O DIABO SE VINGOU

- O diabo existe, moço. Vige dentro da gente. Ninguém se engane. Assim pensava Tóin Matias, vaqueiro valente e corajoso lá das bandas de São Miguel, Barriga d’Areia e Corrente, nas margens do rio Parnaíba, do lado do Maranhão, município de Caxias. Amansador de gado bravo, touro selvagem perdido nos carnaubais e nas matas de igarapés das Coceiras e da Lagoa Funda ou nos pés de morro da lagoa da Ininga.

Ninguém sabia, mas Tóin Matias havia feito promessa ao Diabo, caso se tornasse o vaqueiro mais afamado da região. Reservara um touro da raça nelore, o melhor da sua partilha com o dono do rebanho que campeava. Há desejos que só se realizam com promessas e ele sabia disso. Como já tinha apelado para Deus e nada conseguira, a solução encontrada era valer-se do Diabo.

Ele conhecia a famosa história do Coronel Cícero Damata, rico fazendeiro da região. De vaqueiro tornara-se coronel, dono de quase todas as terras da região. Conta-se que era “empautado” com o diabo. “Empautado” é como se diz, por aqui, da pessoa que faz pacto com o diabo para se tornar rico. Pois foi este pacto que o coronel Cícero Damata fez. De uma hora para outra, comprou terras, gado de toda raça, construiu um império. A casa da fazenda Belo Monte, além de ser toda rodeada de alpendre, possuía dez cômodos. Dizem que um dos cômodos guardava o segredo do coronel. Ninguém se atrevia a chegar perto, razão pela qual surgiam as mais diferentes interpretações. Uma delas era a de que havia naquele quarto um diabinho dentro de uma garrafa.

- Se o coronel Cícero Damata enricou, eu também posso. Vou fazer pacto com o Diabo.

E fez.

O tempo passou e nada de Tóin Matias enricar. Com o tempo, veio a desconfiança:

- Esse negócio do sujeito enricar porque tem pacto com o Diabo é conversa fiada. Diabo que nada. Me esforço tanto e nada. Já prometi até filho a Satanás e nada. Continuo na mesma desgraça.

Já tinha perdido a fé. Não dava mais para acreditar no Diabo. Diziam que ele era poderoso, que tentara Nosso Senhor Jesus Cristo e que comandava o reino de Lúcifer. Tudo fantasia, pensara.

Um dia, andando pelas encostas dos alagadiços, das matas de carnaubais, próximo à lagoa das Branquinhas, no caminho da localidade Corrente de Jorge Machado, sentiu como se uma mão acariciasse as suas costas. Sentiu, naquele momento, um frio intenso em seu corpo, como se algo entrasse em si. Chicoteou o cavalo, dando com as esporas em suas costelas. O cavalo assustou-se e deu uma upa para cima, desequilibrando o vaqueiro Tóin Matias. Mas a carícia daquela mão transformara-se em um aperto na cintura, como se alguém estivesse na garupa do cavalo, segurando-lhe em um abraço bem apertado. Quando olhou para trás e nada viu, gritou desesperadamente:

- Valei-me, minha Nossa Senhora dos Remédios. Me acuda.

Ainda encontrou forças para puxar a rédea do cavalo e encaminhá-lo, em galope rasante, para o caminho que levava à Barriga D’areia. Pensara no Diabo, só podia ser o Diabo, ofendido por causa de sua desconfiança e descrença. Sufocado pelas mãos na sua cintura e por sussurros estranhos em seus ouvidos, Tóin Matias sentia que chegara seu fim, que o Diabo viera buscá-lo de vez. Já estava nas últimas, na derradeira agonia, sem forças. O cavalo pressentira aquela situação, voando entre as murtas e marias-moles do caminho, como se fugisse de um enxame de abelhas italianas. Mas aquelas mãos invisíveis estavam quase a abrir a barriga de Tóin Matias, quando a casa de seu Antônio Silva surge a sua frente.

- Me ajude, seu Antonio, que o Diabo quer me levar!

Nisso o cavalo esbarra de uma vez, quase derrubando o vaqueiro no chão. Seu Antônio olha e não vê nada.

- Mas que Diabo, rapaz, não tem nada aí nas tuas costas. Deixa de bestagem.

- Tá bem aí na sua frente. Tem até chifres, seu Antônio.

- Desce desse cavalo, toma um café bem quente e te acalma. É o que dá a pessoa fazer besteira, pensa que eu não sei. Essa história de fazer pacto com o Diabo só dá nisso. Quem quer o Diabo, o Diabo lhe serve.

Tóin Matias, ainda assustado, desce do cavalo, estava mais amarelo que gema de ovo, entra na casa de seu Antônio, toma café quente e lhe conta como foi toda a história.



Escrito por Lourival Lopes às 21h20
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SOU

 

Não sou irmão das coisas fugidias

Muito menos tenho fases como a lua

Mas sou o acaso em que busco me encontrar

Sou a derradeira lua em que tento me espelhar

Sou a sombra que me segue sem explicar

Sou a náusea em que me sinto agonizante

Sou a luz em que finjo não me enxergar

Sou a dúvida que me desgasta sempre

 

Talvez eu não seja isto ou aquilo

Muito menos sinto gozo ou tormento

Mas, com certeza, sou a pessoa que mais te ama

Nessa vida de becos e encruzilhadas.



Escrito por Lourival Lopes às 17h51
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A VIDA ANDA ASSIM

 

A vida anda em casos e acasos

Em nexos e desconexos pensamentos

Em agonia intensa e desarmoniosa

Em crepúsculos nada venturosos

Em idas e vindas insidiosas

Em ondas encrespadas e turbulentas

Em dúvidas reticentes e longas

Em caminhos dissipados e inválidos

Em etéreos horizontes amordaçados

Em vívidos caprichos desperdiçados

 

A vida anda assim...

Em ritmos acelerados

Em velocidades de luzes quietas

Em cabeças descobertas e díspares

Em loucuras alucinadas

Em torturas envenenadas

Em fortunas desalmadas

Em rápidas fuligens flamejantes

Em céus tortuosos e distantes

Em corpos soterrados na planície

 

A vida anda assim!



Escrito por Lourival Lopes às 17h48
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ELPÍDIO ETERNO

Mataram o Elpídio ou ele simplesmente morreu? Eis uma questão que, para mim, já está resolvida. Elpídio vive, agora eternizado no conto O Vagabundo (post abaixo), publicado na antologia Contos de Arrepiar da CBJE (Câmara Brasileira do Jovem Escritor).

Sempre achei que ele daria um ótimo personagem para um filme ou para um livro. Personagem vivo, vivenciou momentos cinematográficos, mesmo sem ter consciência disso. Um belo personagem! Que a terra lhe seja leve!



Escrito por Lourival Lopes às 22h57
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O Vagabundo

Veio de mansinho. Trazia um saco com não-sei-o-quê na mão. Sentou-se no banco da praça e foi se deitando bem devagarinho, utilizando o saco como travesseiro. Ali, com certeza, passaria a noite, sem lençol nenhum para se agasalhar. Estava cansado. O dia todo passara vagando de um lado para o outro, pedindo uma moeda ou, nos bares, bebendo a sobra das cervejas que as pessoas deixavam nos copos. Em pouco tempo, era um passo para lá, dois para cá... Embriaguez constante. Sem abrigo, o banco da praça ou qualquer calçada eram a sua morada.

Seu nome ninguém sabe. Sua família, desconhecida. Perambula todos os dias pelas ruas da cidade. E, de vez em quando, canta umas músicas que ninguém entende as letras. É uma das atrações que a cidade oferece aos visitantes. Até no bar do seu Zé Silva, onde as pessoas gostam de estar, lá vai ele se apresentando às pessoas que tomam um caldo com ovo ou uma cervejinha bem gelada.

Mas, naquela noite, o cansaço foi maior que o esforço para cantar ou beber as sobras de cerveja. O banco da praça, transformado em cama, o acolhera indolosamente. Dormiu rápido, talvez sonhando, como se vai saber? Bêbado, abandonado, maltrapilho, o que poderia sonhar? Sonhar em viver mais? Sonhar em ter luxo, carro do ano? Sonhar em ter uma casa, uma família? Sonhar em quê? Sono pesado aquele. Dava até para ouvir um leve ronco.

O tempo estava frio. Ameaçava chuva. Mas ele estava na sua improvisada cama: o banco da praça. Começou uma leve garoa, alguns pingos de água. Nada que fosse capaz de interromper aquele sono.

As pessoas que passavam por ali apenas olhavam o bêbado dormindo naquele banco. Às vezes passavam sem perceber que alguém dormia. E, quando olhavam, sem dar muita importância, diziam:

- Não é ninguém. É o Elpídio.

Todos o chamavam assim. Nome botado, depois que ele apareceu na cidade, sem saber dizer ao certo o seu nome.

De repente, a chuva deu uma acelerada. Os pingos de água aumentavam. Uma pessoa, que tomava cerveja no point de Troia, ao lado, levantou-se e dirigiu-se ao banco, onde Elpídio dormia. Queria que o infeliz procurasse abrigo para se proteger da chuva. Primeiro o chamou pelo nome repetidamente. Nada. Depois mexeu nele, insistentemente. Nada. Não estava morto, pensara. Sacudiu o seu corpo com força. Elpídio sentiu. Levantou devagarinho a cabeça e suplicou:

- Num mexe! – E virou-se para o outro lado, como quem diz:

- Me deixa de mão. Eu só quero descansar em paz. Ponto final.

 

 



Escrito por Lourival Lopes às 23h37
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PELO SER

Sou professor. Mas não quero ser reconhecido e valorizado apenas pelo que sei, pelo que faço ou pelo que tenho (que é quase nada). Quero ser reconhecido e valorizado pelo que sou. O ser (da pessoa) não pode estar nem aquém, nem além do outro, mas na mesma linha da existência. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém. Somos constituídos da mesma matéria orgânica. Só isto basta para que pensemos que os caminhos da existência do ser nos levam para o mesmo fim.


Escrito por Lourival Lopes às 16h02
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ESCUTAR

Durante muitos anos falei mais (muito mais) do que escutei. Talvez achando que falar muito significasse dominar o outro. E como gostamos de pensar assim! Na minha atividade profissional (sou professor desde 1979), pratiquei muito essa ideia: dominar a turma. Isso significava calar todo mundo, silenciar. O que fazem os professores, na tentativa de dominar a turma, é, na verdade, silenciar as crianças. Elas, com isso, aprendem uma coisa: ter medo de falar. Hoje entendo que é necessário ouvir as crianças, os jovens, os adultos, os mais velhos. Escutar é uma arte. Quem ouve bem aprende bem.



Escrito por Lourival Lopes às 11h05
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DINHEIRO PÚBLICO

Gastar o dinheiro público com segurança e infraestrutura para que aconteçam festas populares, como, por exemplo, o carnaval, é necessário e providencial. Mas acho que deveria ser proibido ao poder público utilizar o dinheiro dos impostos, que são pagos pelos brasileiros, para contratar Bandas de forró, axé, suingueira e outras do gênero para animar festas de fim de ano, carnaval em época ou fora de época. Enquanto o povo se diverte, acidentes acontecem e os hospitais públicos, sem recursos para a sua manutenção, nada podem fazer. É um contra-senso.



Escrito por Lourival Lopes às 08h02
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DOS CANAVIAIS

 

Da história dos primeiros colonizadores

Do Brasil, das Capitanias Hereditárias,

Sesmarias que atravessavam

A linha imaginária das Tordesilhas,

Os canaviais ainda (co)mandam

A economia do açúcar e do álcool.

Em nossas plagas, nas entranhas

De nossas matas,

Árvores, plantas e palmeiras centenárias

São ceifadas

Para ceder lugar ao verde da cana-de-açúcar.

Homens trabalham duro,

De sol-a-sol,

No corte da cana,

Que abastecem as refinarias de açúcar e álcool.

As queimadas dos canaviais

Produzem efeitos nocivos

Ao clima, à vida e ao meio ambiente,

Provocando um lastro

De desequilíbrio insustentável

Na natureza.



Escrito por Lourival Lopes às 11h17
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